Raphael

Raphael

Quinta, 26 Julho 2018 12:32

Faça sua parte

“Exige muito de ti e espera pouco dos outros. Assim, evitarás muitos aborrecimentos” (Confúcio).
 
Exigir significa reclamar em função de direito legítimo ou suposto. Quando eu exijo mais de mim mesmo dos que dos outros, começo a descobrir que a melhoria das pessoas e da sociedade começa por mim mesmo. Quando começo a trabalhar as minhas limitações, irritabilidades, incapacidades, etc. vou percebendo que projetava nas outras pessoas aquilo que era meu mesmo. Quando exijo mais de mim, deixo de preocupar com as coisas dos outros e passo a ocupar-me das coisas que são minhas.
 
Podes ter certeza disso: quando tu melhoras, acabas melhorando o ambiente que te cerca. Quando tu evoluis no teu processo de aperfeiçoamento, atinges também aqueles (as) que te cercam: tua família, teus amigos, a comunidade, a sociedade que estás imerso. O conhecimento, a sabedoria, a paz estão dentro de ti. Não os procures em outros lugares... Volta-te para ti mesmo e encontrarás o teu equilíbrio e a tua paz!
 
Abraços terapêuticos,
Frei Paulo Sergio, ofm
Quinta, 26 Julho 2018 09:14

Dia dos Avós: Elogio da idade avançada

Neste mês, a 26 de julho, ocorre o Dia dos Avós, data em que se comemora a festa dos pais de Maria, Sant’Ana e São Joaquim dia dos avós. Normalmente, os avós são pessoas de certa idade. Que todos leiam com gosto estas linhas inspiradas no diário de um franciscano idoso, reflexão de um antiquíssimo número da revista “Vita Minorum”, Julho de 1983.

Frei Almir Guimarães

A velhice é um tempo de graça. Normalmente, nesta quadra da vida as paixões se abrandam. A fantasia perturba menos o trabalho do intelecto. Julga-se as pessoas com mais benevolência. Pensa-se mais naquilo que se fez e menos naquilo que ainda resta por fazer. O forte desejo de ser valorizado, estimado, compreendido não preocupa mais tanto. Sem desprezar os jovens, nesta altura da vida, esboça-se um sorriso quando eles expõem seus projetos tão parecidos com os nossos. Muitos dos nossos sonhos nunca se realizaram. Mesmo assim, com nossa idade avançada, não permitimos que eles morram. Temos ainda uma secreta esperança de que eles vão se realizar. Quem sabe os que chegam abracem os ideais que abraçamos.

Não se perde mais tempo com inúteis tagarelices e com leituras que não são necessárias. Não se acompanha com tanta avidez as notícias veiculadas pelos meios de comunicação. Não se estranha o mundo. Vai-se, no entanto ganhando consciência de um outro mundo, mais estável. Não se dá importância exagerada, ao que na realidade tem pouco valor e é efêmero. Não se busca consenso nem a atenção dos outros. Nessa quadra da existência experimenta-se uma liberdade interior raramente atingida em outro período da vida. Aos poucos vamos nos aproximando de Deus que é eterno. Adquire-se a capacidade de “partilhar”, de perdoar, de escutar, de sorrir face às próprias fraquezas e às fraquezas dos outros sem desprezar ninguém. O coração da pessoa envelhecida se dilata na medida do coração de Deus…

A infância é bonita e agradável, mas é um período de inconsciência. O tempo da idade avançada é talvez um pouco menos festivo, mas desprovido de malícia e é um período de vida consciente. A juventude é ardorosa, mas inconsequente. A idade madura talvez seja menos calorosa, mas quem sabe mais dada à reflexão. A idade jovem é orgulhosa, tende a afirmar-se, sobrepor-se e colocar-se em posição de superioridade. A velhice é mais humilde, longânime, deixa lugar para os outros porque seu intento é degustar e viver em plenitude o momento presente. Nada deixa para o amanhã. O bem tem que ser feito aqui e agora. Daí a urgência de fazer todo o bem possível. Para a pessoa de idade avançada o tempo é pleno, cada momento é uma espiga madura e cheia. Não dá para deixar vácuos, cancelamentos e adiamentos. Tudo o que o Espírito sugere será realizado imediatamente. O ancião não em tempo para saudades. Como nenhuma outra pessoa, vincula-se ao presente.

 

Terça, 24 Julho 2018 10:02

Cuide-se

“Você carrega o poder de cuidar do seu próprio espaço interior: sua mente, seu corpo, suas emoções, seu senso de si. Cuide de si” (Lisa Engelhardt).

 

Faça o que você deseja e o que você deve fazer. O medo não é uma barreira, é apenas uma projeção mental. Faça contato com o seu medo, mas não dê muita importância para ele... Aprenda a observá-lo, através da sua consciência. Aprenda a vencê-lo em etapas pequenas. Em breve você estará atravessando-o com confiança e tranquilidade.

 

Aprenda a “perder tempo” com coisas que parecem insignificantes, mas que na verdade são muito importantes: cuide de um jardim, regue suas plantas com dedicação, cultive um canteiro, deixe água numa vasilha para os passarinhos beberem... Isso é uma boa terapia de contato que fazemos com a natureza e com nosso mundo interior.

 

Tenha um abençoado e iluminado dia!

Frei Paulo Sérgio, ofm

 20 de julho, o Dia Internacional da Amizade.

 Vamos conversar sobre um tema belo e delicado: amigos, amizade. “Há palavras que fazem viver”, diz o poeta Paul Eluard. A palavra amizade é precisamente uma delas. Ela não se confunde com a camaradagem que une os companheiros de trabalho. Verdade, que pode começar por aí. É diferente dos laços amorosos que unem um homem e uma mulher no estreitamente dos corpos e dos corações. Isto não quer dizer que os casados não possam usufruir das benesses da amizade. André Comte-Sponville diz lembrar-se com emoção da afirmação de uma mulher referindo-se ao marido ao dizer: ‘É meu melhor amigo”.

tique-20 Difícil discorrer sobre a amizade: “Difícil falar de amizade sem cair na banalidade, ser taxado de idealismo ou quem ignora seus desvios. A amizade, como a música, é questão de justeza, de precisão; a amizade não tolera notas falsas; uma execução desequilibrada quebra a harmonia. Não é como uma troca de ideias agradável e mundana entre pessoas frequentando boa companhia, não se confunde com a experiência de camaradagem que une companheiros de trabalho ou de esporte, nem com a paixão amorosa. Há mil matizes na amizade, segundo as estações da vida mas sempre um “não sei o que” a caracteriza, um sabor único ao coração e que o coração reconhece” (Marie-Thérèse Abgrall, Saveurs d’amitié, Christus 209, p.8).

tique-20 Tentemos ir adiante. Há tantas amizades: aquela que vivem os colegas da escola ou de um clube esportivo; os que viveram juntos a experiência de excursões; os homens e mulheres maduros que gostam de se encontrar simplesmente pela alegria do encontro, em torno de um copo. Camaradagem? Amizade?

tique-20 Triste ouvir alguém dizer: “Não tenho mais amigos. Todos me abandonaram”. Uma tal constatação pode levar alguém ao mais profundo abismo, acelerar a destruição de um ser diante dos fracassos amorosos e profissionais ou simplesmente existenciais. Somente um amigo verdadeiro pode ser buscado para curar as feridas sem machucar mais ainda.

tique-20 O amigo não faz discursos, não precisa se preocupar com demonstrações, isto é, provas de amizade. A amizade é fortemente ancorada pela confiança colocada em alguém. Os dois caminham juntos, mas abertos. Os que se estimam como amigos evitam de manchar o relacionamento com qualquer sorte de paixão e pretensão de posse egoísta.

tique-20 No começo, sim, pode existir uma camaradagem. As crianças, os que frequentam jogos, os trabalhadores de uma fábrica são colegas e camaradas. Para que daí brote a amizade será preciso fazer vibrar uma outra corda, descobrir outra dimensão, ou seja, da interioridade. O momento em que costumam nascer amizades é no tempo da adolescência. Começa-se a estimar pessoas que estão fora do circuito familiar. Há um jogo de profunda estima entre dois que até então nada mais eram do que dois.

tique-20 A amizade é, antes de tudo, experiência de encontro, presença de um na vida do outro, um reconhece o outro com seu mistério e sua riqueza. No começo tudo parece depender uma “química”. No nascedouro da amizade há alegria de se reencontrar, prazer de estarem juntos, facilidade de comunicação. Os amigos se sentem bem um perto do outro, não somente pelo interesse da conversa nem por participarem de atividades em comum. Há uma espécie de acordo de fundo que se traduz por certos índices: uma claridade no semblante, olhares que se cruzam com certa conivência ou cumplicidade, vivacidade, gestos de cordialidade.

tique-20 Mais do que prazer, a amizade faz nascer alegria nos amigos, quer dizer um sentimento de crescimento da vida. Spinoza diz que na amizade vive-se a passagem para uma maior perfeição. Diante do amigo com ele descubro-me mais rico interiormente do que pensava. Parece que o amigo faz brotar o melhor de mim mesmo, sempre sem desejo de posse. Que riqueza!

tique-20 A amizade é a experiência de um acordo, de uma concórdia, de uma paz mais do que uma semelhança. Os amigos podem discordar um do outro, sem que nada se perca do acordo essencial entre os dois.

tique-20 Os amigos conversam, se comunicam. Mas as palavras não constituem o todo. Um dos charmes da amizade vem de uma “liga”, de uma feliz alternância entre silêncio e palavra. Se a palavra é essencial, ela não é indispensável Um relacionamento se torna efetivamente amistoso quando suporta o silêncio.

tique-20 Há muitas e belas páginas escritas sobre a caminhada e a amizade. Quantas amizades não foram nutridas ou alimentadas por longas horas ou dias de caminhada, passeio, competições, caminhadas em que se está lado a lado, próximos um do outro, mas levados pelo movimento e pelo ritmo. Cada caminhando com seu próprio passo, mas no mesmo ritmo. Não é o face a face. O olhar dos dois se dirige para o horizonte que é comum e livremente percorrido por um e pelo outro. Fala e silêncio, conversa e momentos sem fala. Estar perto, mas também viver em silêncio e separados. A amizade é como uma caminhada comum com pausas, retomadas. A concórdia interior supõe ou exige uma abertura a uma maior. A amizade é inseparável de uma busca, de um ideal, de uma comum aspiração.

tique-20 A amizade começa com a experiência de um encontro. Esse encontro, porém, só se tornará amizade se confirmado por um segundo, terceiro, e depois, por uma série de encontros. Se depois do segundo e em seguida acontecer decepção e vazio, o elã do começo nada mais terá sido que uma simpatia que costumamos conhecer em nossa vida. A amizade nasce e se alimenta de muitos encontros.


 

EM TORNO DA AMIZADE

Textos antigos

Teofraste ( 379-287 a.C.)

tique-20Quando se dizia: “Ele é amigo deste homem”. Teofraste observava: “Então, por que ele é pobre e o outro rico? Quem não partilha os bens não pode ser chamado de amigo!”.

tique-20Quando lhe perguntavam: “Quem são teus amigos?” Teofraste respondia: “Como é que vou saber? Sou rico, quer dizer, tenho muito dinheiro e poucos amigos”.

Epicuro (341-270 a.C.)

tique-20A amizade deverá sempre procurada por ela mesma, embora tenha sua origem numa necessidade de ajuda.

 

tique-20

O que vale na amizade não é tanto a ajuda que os amigos podem nos dar mas nossa confiança em tal ajuda.

Cícero (106-43 a.C.)

tique-20Que existe de mais delicioso do que ter alguém a quem nos dirigirmos como se fosse a nós mesmos? Que adiantaria a riqueza nos sorrir se não tivéssemos com quem partilhar e usufruir dela como nós? Ou então, quando miseráveis e pobres, que dor não ter alguém que se sinta tocado por nossa desventura?

tique-20

De todos os bens que recebi por sorte ou pela natureza não há nenhum que possa comparar-se à amizade com Cipião. Concordância de pensamento em termos de política, sábios conselhos a respeito de negócios particulares, momentos de descanso charmosos… essa amizade tinha tudo isso. Não tenho nenhuma ideia de um dia ter ferido Cipião fosse com que fosse. Nunca ouvi dele uma palavra que me desse tristeza. Sua casa era minha, nosso modo de viver o mesmo, tudo era comum entre nós, não somente servimos às armas juntos, como viajamos juntos e juntos passamos um tempo no campo. Que direi de nosso gosto comum pelo estudo e da vontade comum de crescer no saber?

Um eco do Novo Testamento

Na cristologia contemporânea percebe-se hoje um deslocamento para dois títulos, ambos de origem neotestamentária e que, talvez, respondam melhor à experiência atual: Cristo Amigo e Mestre. O título de “Amigo” aparece no Evangelho de João e sublinha a relação amistosa e confiante que Jesus estabelece com os crentes: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor; chamo-vos amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer (Jo 15,15). Cristo não é só Senhor que salva, mas o Amigo próximo que compreende e acompanha. A teologia atual sublinha a importância de um Cristo amigo numa época em que não poucos experimentam a solidão existencial.
José Antonio Pagola, “O caminho aberto por Jesus – Mateus”, p. 160

Dois amigos

Encontrávamo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo de uma única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões. Mas voltamos a nos reunir como se tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis.
Nessa ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade dos costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir os outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação.
Que aconteceu então? Ele foi quase que o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato. Este foi o prelúdio da nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo.
Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo: a filosofia era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando os mesmos ideais e cultivando cada vez mais estreita e firmemente nossa amizade.
Gregório de Nazianzeno e Basílio Magno, Liturgia das Horas I, p. 1111-1112

Quarta, 18 Julho 2018 08:55

Festa de Santa Clara 2018

Entrevista com o pastor presbiteriano Antônio Carlos Costa. Jornalista, teólogo, escritor e fundador da ONG Rio de Paz.

São Paulo (SP) – Aos 56 anos, o pastor presbiteriano Antônio Carlos Costa é uma das vozes na luta pelos direitos humanos no Rio de Janeiro. Em 2006, ele fundou a ONG Rio de Paz, a partir de uma manifestação feita na praia de Copacabana e que ficou conhecida em todo o mundo. Contra a chacina que vitimou 19 pessoas, os manifestantes colocaram 19 cruzes na areia da famosa praia. Era também o início de uma transformação no ministério do pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. “Ali, tomei a decisão de ir para a rua. Eu deixei de ser um teólogo voltado para o ensino da Teologia e passei a ser um militante de direitos humanos”, conta o pastor.

Autor dos livros “Convulsão protestante: Quando a teologia foge do templo e abraça a rua” e “Teologia da trincheira: Reflexões e provocações sobre o indivíduo, a sociedade e o cristianismo”, ambos pela Editora Mundo Cristão, ele acompanha as famílias vítimas da violência e testemunha o descaso com estas pessoas, que sofrem com a perda e indiferença do Estado e da sociedade. “O contato com essas famílias faz com que a gente não saia das ruas”, assegura. Com relação à intervenção federal na segurança pública, ele conta que a sociedade do Rio de Janeiro ainda não sentiu a diferença. Sobre a violência no país, ele declara: “Estamos vivendo hoje um banho de sangue no Brasil”.

Sobre a resistência de diversos cristãos com o trabalho social, ele afirma: “Não há nenhuma justificativa para o fato de os cristãos brasileiros não verem a luta pela defesa dos direitos humanos como sinal característico da verdadeira santidade de vida”. Para ele, estar ao lado dos mais pobres é ser um sinal de Jesus Cristo.

Acompanhe a entrevista concedida a Érika Augusto no programa Sala Franciscana.

Franciscanos – Qual das suas vocações nasceu primeiro: jornalista, pastor ou escritor?

Antônio Carlos - No final da minha adolescência, meu desejo era ser jornalista. Naquele mesmo período, a minha mente começou a se envolver com as grandes questões da vida, passei a me preocupar com aquilo que até então não me preocupava, as grandes perguntas da Filosofia, quem somos, de onde viemos, para onde vamos. E essas perguntas me levaram para a fé cristã. Pela primeira vez me tornei um discípulo de Cristo. Passei, então, a viver com o propósito de me submeter, moral e intelectualmente, ao Evangelho. Só que as respostas que encontrei no cristianismo foram tão fascinantes, foi algo que me empolgou tanto, me comoveu em tal extensão que falei: vou me dedicar a isso a partir de agora. Vou consagrar minha existência a tornar esta mensagem conhecida pelo maior número possível de pessoas, porque é muito difícil viver sem esperança. Acredito que as respostas do Evangelho atendem às principais demandas do espírito humano.

Então, me envolvi com o trabalho pastoral, só que no contato com as Escrituras Sagradas, conheci não apenas o Deus cristão, mas também o ponto de vista do Evangelho sobre o ser humano. O cristianismo exalta muito o homem e a mulher, a ponto de dizer que ambos foram criados à imagem e semelhança de Deus, portanto, devem ser objeto do nosso amor. Por conta dessa antropologia do Novo Testamento, passei a me sentir profundamente incomodado com a violência no Rio de Janeiro e administrei durante muitos anos uma crise, produto do contato com a violência através dos meios de comunicação, sem que me insurgisse contra aquele estado de coisas e procurasse, juntamente a outros cidadãos cariocas, cristãos e não cristãos, fazer oposição à barbárie. No dia 28 de dezembro de 2006, traficantes mataram 19 pessoas no Rio de Janeiro, sendo que destas, 8 pessoas foram queimadas vivas. Ali tomei a decisão de ir para a rua. Deixei de ser um teólogo voltado para o ensino da Teologia e passei a ser um militante de direitos humanos.

Atribuo à graça de Deus a ideia que tivemos, que abriu muitas portas, ao fazer uma manifestação que entrou para a história do país. Nós montamos um cemitério, com cruzes pintadas de preto na praia de Copacabana. E, desde aquele dia, os meios de comunicação cobrem as nossas manifestações. Nós usamos desse privilégio, dessa confiança, para dar voz aos sem voz, para dar visibilidade àqueles cuja agonia não é do conhecimento da sociedade, aos que são ignorados pelo Poder Público. Aí, então, nessa dinâmica, surge o desejo de escrever. Passei a escrever para jornais do país e também nas redes sociais. Veio, então, o interesse por apresentar os pressupostos intelectuais da minha militância no campo dos direitos humanos, através de dois livros: “A convulsão protestante”, que foi essa mudança súbita que me levou a protestar nas ruas e “Teologia da trincheira”, que foram os artigos que eu escrevi durante este período em que me senti na trincheira. São 11 anos nas ruas protestando contra a violência e defendendo os direitos humanos, entrando em favela, indo a cemitérios, chorando com os parentes de vítimas. Nesse período, escrevi muito, e esses artigos foram agrupados e se transformaram em livro. Eu tenho três paixões na vida: o amor pela produção de livros, e livros que possam trazer esperança e mobilizem as pessoas para a ação; a paixão pelo jornalismo, de contar histórias, de falar a respeito destas pessoas cuja dor ninguém conhece; e também a pregação do Evangelho, que é uma coisa radicada na minha vida e o encanto continua até hoje.

Franciscanos – Quais são as principais atividades realizadas hoje pela ONG Rio de Paz?

Antônio Carlos – O Rio de Paz atua em duas áreas: primeiro, a filantropia. Prestamos ajuda aos necessitados, aos pobres, moradores de favelas no Rio de Janeiro. Distribuímos alimentos, cestas básicas, oferecemos ajuda para reconstruir residências, damos cursos profissionalizantes, entre outras atividades. É lamentável ter que dizer isso, mas é um trabalho prejudicado pela violência das favelas, porque as operações policiais ocorrem subitamente e, muitas vezes, chegamos em meio ao tiroteio. Por conta disso, tememos enviar voluntários por receio deles serem vítimas de bala perdida. Já vivemos situações muito aflitivas. Poderíamos estar fazendo muito mais na área da filantropia, porque tem muita gente que nos procura querendo trabalhar em comunidade, mas em razão dos confrontos, não temos feito o que poderíamos e gostaríamos de fazer.

O trabalho da ONG que é mais conhecido são as manifestações de rua, que têm como objetivo denunciar a violação de direitos, o abuso de poder, a desigualdade social. Já fizemos várias, em São Paulo, Brasília, Recife, Belo Horizonte, sendo que a maioria está concentrada no Rio. Essas manifestações são o carro-chefe porque são as que dão mais visibilidade para tudo o que fazemos e os efeitos são extraordinários, porque, com a filantropia, a gente oferece uma ajuda pontual aqui e ali. Quando conseguimos, através de uma manifestação, fazer o Estado agir, é diferente. A ação do Estado produz resultados muito mais amplos do que aqueles que nós alcançamos, mas que estão muito aquém do que esse ‘mar de gente’ pobre carece.

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Franciscanos – Você ministra numa igreja na favela do Jacarezinho e o púlpito que você usa tem marcas de balas. Qual é o sentimento de pregar a Palavra de Deus num símbolo como este?

Antônio Carlos - É muito triste. São pessoas que tentamos ajudar e que são ignoradas pelo Poder Público. A sociedade civil toma a decisão de fazer alguma coisa, nós, como nós cristãos, paralelo à defesa dos direitos humanos, através das manifestações e da filantropia, levamos o Evangelho. Estando ali, decidimos ter reuniões regulares para falar de Jesus Cristo àquelas pessoas. No decurso de um 1 ano e 10 meses, em 8 operações policiais, a nossa igrejinha levou 300 tiros de fuzil e pistola e o púlpito onde prego foi atingido por 3 disparos de arma de fogo. Isso também é algo que nos limita profundamente e que gera muita incerteza, porque nunca se sabe quando vai começar o tiroteio e tememos muito pela vida dos moradores, especialmente das crianças. São muitas crianças frequentando esses cultos nas tardes de domingo.

Franciscanos – Vocês estiveram no enterro do adolescente Guilherme Henrique, morto no dia 20 de junho na Vila Vintém e também acompanham diversas famílias das vítimas da violência. Como estas famílias ficam diante de uma situação como esta?

Pastor Antônio Carlos Costa - É uma devastação. Vemos famílias destroçadas, desconjuntadas. É difícil encontrar um adjetivo que traduza, que nos ajude a ter uma ideia do que estas pessoas experimentam. Já vivi situações onde a mãe de uma criança de 1 ano, morta com um tiro de pistola no peito, trouxe o corpo da filha no peito para amamentar, no seu desespero. Já vi gente se jogar dentro da sepultura para arrancar o caixão, recusando-se a enterrar o filho. As pessoas não conseguem voltar a trabalhar, passam a conviver com uma depressão latente. Elas se sentem ignoradas pela sociedade, abandonadas pelo Estado. A autoria do homicídio, em geral, não é elucidada. É um descaso completo. Como se não bastasse o absurdo da perda de um parente querido, essas pessoas têm que lidar com a indiferença de todos. Dependendo do caso, se tiver muita repercussão, as famílias vivem intensamente este tempo, com entrevistas, presença da imprensa, do noticiário e aí passa-se uma ou duas semana e pronto, acabou! Ninguém se lembra mais, vem outro caso, que faz com que esqueçamos do anterior e pronto. Você tem essas vidas marcadas para sempre. Algumas destas pessoas vivem o drama da ideia fixa de ver os criminosos punidos. Então acabam sofrendo muito com isso, e mais ainda com a impunidade. Algumas não conseguem se livrar desse sentimento, que é uma coisa difícil de compreender para quem não passou por essa experiência. A gente observa um forte desejo de ver quem praticou o crime punido pelo que fez.

Em geral, esse sentimento de justiça não encontra satisfação no Brasil porque nossas polícias revelam uma grande falta de recursos, de estrutura, para fazer um trabalho investigativo à altura. Por isso, o Brasil é um país que pune muito, e pune mal. Esses que praticam crimes contra a vida, que são os crimes mais graves, como latrocínio, execução extrajudicial, esses não vão para trás das grades porque não se descobre o crime que praticaram. O contato com essas famílias faz com que a gente não saia das ruas. Se hoje você me perguntasse qual é o meu sonho, entre outros é de não ver mais famílias passando pelo que essas famílias, que conheci muito bem, passaram. É uma dor incalculável.

Franciscanos – O que você percebe que mudou no Rio de Janeiro depois da intervenção federal na segurança pública?

Antônio Carlos - Até agora a sociedade não percebeu mudança. Não estou falando tão somente de um sentimento de insegurança. Esse é generalizado. Mas, muitas vezes, pode ser um sentimento produzido artificialmente, porque as pessoas estão preocupadas com aquilo que não deveria preocupá-las. Quando se vê as estatísticas do Instituto de Segurança Pública, percebe que os números são assustadores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece 10 homicídios por 100 mil pessoas por ano como limite. Mais de 10 mortes por 100 mil pessoas por ano é considerado um quadro endêmico pela OMS. O Rio de Janeiro hoje tem 30 pessoas mortas a cada 100 mil, ou seja, estamos atravessando uma endemia. No Brasil, a estatística é a mesma. Tem cidades nordestinas com 90 homicídios a cada 100 mil pessoas. Estamos vivendo hoje um banho de sangue no Brasil. O Rio de Janeiro não é um caso isolado e nem é o Estado mais violento da União. O Nordeste hoje é a região que está atravessando o quadro mais dramático.

No Rio, percebe-se que não houve mudança, as pessoas estão ainda sem entender qual é o sentido da intervenção. Não se conhece metas, cronogramas, não há prestação de contas. Sentimos que a interlocução com a sociedade civil também está muito aquém das exigências da democracia e também não estamos vendo mudanças nas estruturas da Polícia Civil e Militar. E o principal, não temos investimento nas favelas, implementação de políticas públicas que tenham como objetivo diminuir a desigualdade social que é a grande causadora dessa desgraça toda.

Pode ser que tenha alguma coisa em curso, que esteja oculta aos nossos olhos, até espero que seja isso, porque acredito que as Forças Armadas não estejam brincando com a população. Inclusive há pessoas que passam para as pessoas seriedade. Olhando de longe, parece que há nas Forças Armadas quadros excelentes, de pessoas honestas, gente que passou pelo Haiti, com uma experiência exitosa. Por isso alguns setores da sociedade receberam de bom grado a intervenção federal, acreditando que o êxito no Haiti seria também implementado no Rio de Janeiro. Mas até agora não houve mudança e os números estão aí para provar.

Franciscanos – O Papa Francisco, muitas vezes, é taxado como comunista por causa de sua postura, quando se coloca ao lado das pessoas mais necessitadas e cobra esta postura da Igreja. Você também enfrenta essa questão. Na sua opinião, por que alguns setores das Igrejas cristãs e da sociedade veem com maus olhos os cristãos que defendem as causas sociais e os direitos humanos?

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Foto: Eduarda Rosa | Blog Argumentandum

Antônio Carlos - As respostas são as mais variadas. Não há uma única causa para essa oposição ao movimento de direitos humanos. Não há nenhuma justificativa para o fato de os cristãos brasileiros não verem a luta pela defesa dos direitos humanos como sinal característico da verdadeira santidade de vida. São vários os motivos. Poderia enumerá-los e vou fazer sem seguir uma ordem de importância.

Do ponto de vista do protestantismo, percebo uma influência muito grande da Teologia norte-americana. Os pastores, em geral, leem livros produzidos nos Estados Unidos e há setores do protestantismo americano muito contrários ao combate à desigualdade social, à luta pelos direitos humanos, porque trata-se de uma Igreja que não está vivendo o drama da América Latina. São pessoas que não conhecem os problemas sociais que enfrentamos. Muitas vezes, os pastores importam problemas dos Estados Unidos, da cultura americana, e deixam de tratar os problemas do nosso país.

Um pastor de uma igreja de classe média americana não tem, no caminho da sua casa pra igreja, que cruzar cinco favelas. Ele não vê corpos estendidos no chão, cravados de balas. Ele não sabe o que é o telefone tocar às 10 horas da noite ter que sair correndo para uma favela, a fim de fazer mediação entre policial e morador. Não têm 62 mil homicídios dolosos nos Estados Unidos. As igrejas sofrem uma grande influência desse tipo de mentalidade.

Também faz parte dessa cultura que a função da igreja é somente pregar o Evangelho e que, portanto, essas atividades, que são tidas como seculares, devem ser exercidas por pessoas que não têm as preocupações espirituais que temos. Não tenho a menor dúvida que a missão número um da igreja é pregar o Evangelho. Tanto os nossos amigos católicos e os amigos protestantes, todos nós sabemos que Cristo morreu e esta mensagem tem que ser anunciada, e só nós fazemos isso. Se deixarmos de fazê-lo, ninguém mais o fará.

A pergunta que precisa ser respondida é a seguinte: o que esperamos que saia do resultado da catequese, da pregação do Evangelho, do que é ensinado na missa, no culto? Nós esperamos que saiam ‘pequenos Cristos’, pessoas com a identidade de Cristo, parecidas com Jesus, que revelem a beleza de Jesus. Revelar o caráter de Cristo é amar o necessitado, compadecer-se do pobre, do oprimido. Nós vemos Jesus Cristo fazendo isso o tempo inteiro. Sua atividade pública é praticamente dedicada aos oprimidos. Do ponto de vista da cultura protestante do nosso país, esse é o nosso grande pecado, não vemos a luta pela justiça, o combate à violação de direitos, o enfrentamento da desigualdade social como sinais característicos de uma vida autenticamente cristã.

Some-se a isso também o desejo de ver a Igreja crescer. Isso é triste. Há uma preocupação profícua de aumentar o número de fiéis. Então, muitos temem que ao se dedicarem a essas tarefas, vão estar impedindo a Igreja de crescer, o que é um contrassenso. Que Igreja vai ter o respeito da opinião pública, da sociedade, se ela se mantiver alheia a estas questões que, muitas vezes, despertam a compaixão até de ateus? Ocorre também muito medo, porque lidar com estas questões é diferente de lidar com o tema do aborto. Estou entre aqueles que creem na santidade do embrião, na santidade do feto. Contudo, ir para as redes sociais e condenar o aborto, fazer manifestação de rua, não põe sua vida em risco. É diferente de condenar aquele que, com arma na mão, está executando pessoas. É uma esquizofrenia muito grande. Quando essa vida nasce, cresce, se transforma num menino negro, morador de favela com 16 anos, você ignora, você não se preocupa com a educação dessa criança, você não se preocupa se essa criança está sofrendo maus tratos ou se ela é vítima de bala perdida. Por que não lutar pelo respeito à santidade da vida humana em todas as fases em que essa vida transcorre?

Outra causa que percebemos dessa alienação na sociedade brasileira é uma onda de conservadorismo. Isso é um fenômeno não somente no nosso país, mas em parte da Europa e muito mais nos Estados Unidos. Trata-se de uma febre de conservadorismo de direita muito forte. O discurso dos direitos humanos, do combate à desigualdade, da luta pelos direitos da classe trabalhadora, essas pautas ficaram muito identificadas com a esquerda, elas sempre foram vistas como bandeiras da esquerda. Quando você, portanto, sai em favor dessas demandas do direito e da justiça, você acaba sendo rotulado como marxista, comunista. As pessoas acham que o comunismo e o marxismo são compatíveis com o cristianismo, o que eu discordo. Eu não sou marxista e muito menos comunista. Contudo, as críticas que foram feitas ao capitalismo são críticas que, em parte, qualquer profeta do Antigo Testamento faria. Não vejo por que, com a mente aberta, com o Evangelho em uma das mãos e o jornal na outra, como diz a Carta de Paulo aos Tessalonicenses, não se pode reter o que é bom destas ideologias. Até mesmo no capitalismo, creio que há aquilo que se pode ser aproveitado, aquilo que promova a riqueza, sem dilapidar os recursos naturais e legitimar a exploração do homem pelo homem.

Estamos enfrentando hoje uma onda conservadora de direita, que faz com que tudo aquilo que pareça como ideologia de esquerda seja visto com maus olhos. Fazendo isso, estamos deixando de incorporar à práxis cristã algo que está tão presente no discurso dos profetas maiores, dos profetas menores e, acima de tudo, no Sermão da Montanha.

Segunda, 16 Julho 2018 08:42

Instantes

“Se em um instante se nasce e um instante se morre, um instante é o bastante pra vida inteira” (Cecília Meireles).

 

Na experiência humana caminhamos no tempo; na história construímos nossas vidas, nossos sonhos e lutas. No chão batido da terra fazemos caminho, deixamos vestígios, lançamos sementes... Na realidade existencial de cada um vamos experimentando e construindo o humano que acontece em cada um de nós e se plenifica na própria humanidade. Homens, humanos, humanidade, húmus (= terra fértil): construção, empenho, vir-a-ser, projeto infinito...

 

No instante existencial de cada momento vamos construindo a eternidade, vivenciando com intensidade os encontros, fazendo dos des-encontros novas possibilidade, abertura para o novo. Na experiência amorosa de Deus que tudo cria e nos sustenta na vida, vamos evoluindo e crescendo... O amor de Deus nos impulsiona a fazermos de nossa jornada, um projeto e um sonho amoroso de eternidade!

 

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Quarta, 11 Julho 2018 10:43

Provações

“O período de maior ganho em conhecimento e experiência é o período mais difícil da vida de alguém” (Dalai Lama).

 

Os momentos de maior provação levam-nos a re-significar nossas vidas. Aprendemos muito nos momentos de dor, de perda e de derrotas... Se buscarmos a sabedoria dentro de nós, vamos encontrar muitos motivos para nos levantar e continuar... Faz-se necessário decidir sempre, buscar outros caminhos e seguir adiante com a certeza de ter sido o melhor que se pôde, sem culpas ou constrangimentos.

 

Do lugar existencial onde estou, do momento presente onde a vida acontece eu lanço o olhar para aquilo que vem, sem nenhuma ansiedade, mas com confiança no caminho. Vou dando sentido ao agora, ao presente, ao hoje... Passo a agradecer sempre, colocando-me no espírito de gratidão: encontro paz, alegria e felicidade nas pequenas coisas... Sou feliz por participar da extraordinária jornada da vida!

 

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Segunda, 09 Julho 2018 16:01

O tempo é agora

“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente” (Rubem Alves).

 

Aprenda a gostar, de verdade, das coisas que deve fazer e das pessoas que o cercam. O dever nunca deve ser algo indigesto ou uma tortura, pois no dever é que descobrimos o direito de vivenciar o cotidiano também com prazer. A vida se renova a cada amanhecer e traz sempre a novidade e o extraordinário em seu bojo. Não economize sorrisos, alegria, abraços, disposição... Não economize o amor, pois ele é infinito!

 

Não deixe de acreditar nos seus sonhos e na sua capacidade de aperfeiçoar. Acredite na vida e na capacidade humana de evoluir. Assuma cada instante da vida com concentração e entrega... Em pouco tempo descobrirá que a vida, além de um grande dom divino, é muito boa de ser vivida e ser partilhada em sua simplicidade e esplendor!

 

Tenha uma ótima e abençoada semana!

Frei Paulo Sérgio, ofm

 
Segunda, 09 Julho 2018 10:40

Vem Aí....