Raphael

Raphael

Quarta, 23 Agosto 2017 12:46

Saber Ouvir

“Se não sabe escutar, não sabe falar” (Heráclito).

Um processo de comunicação construtivo é fazer quem lhe escuta se sentir valorizado.  Pergunte a eles o que pensam e escute com atenção suas respostas. Jamais fale às pessoas como num monólogo. Ninguém gosta de ficar escutando uma pessoa que não dá espaço para outros opinarem. Saber ouvir é uma virtude que poucos têm. Não é à toa que nascemos com duas orelhas e apenas uma boca…

Acho incrível a capacidade de mergulhar no mundo de outra pessoa, na intimidade, no dilema, no problema e até na loucura de outra pessoa... Aprendemos muito mais quando ouvimos do que quando lemos, pois a audição engendra em nós a comunicação que captamos com a fala e os ruídos... Quando aprendemos a escutar os pássaros cantarem, entramos na dinâmica na contemplação...

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Segunda, 21 Agosto 2017 15:52

Presente

“Quando te dói olhar para trás e te dá medo olhar adiante, centra e concentra-te no aqui e agora” (Fr. Paulo Sérgio, ofm).

O passado serve sempre de aprendizado para a construção de um hoje melhor, mais equilibrado e feliz. O futuro está na categoria do “se” e fica completamente fora de qualquer possibilidade de controle... Ele é sempre abstração, fruto da mente ansiosa e desconectada da vida no seu fluir. O hoje (momento atual) apresenta o real, o pulsar a consciência na sua expansão...

O caminho está na capacidade de expandir a consciência, ampliar a visão, permitir que cada momento seja intenso na sua duração... A prática diária da meditação possibilita uma saída do ego para a consciência... E, esta, expande para a consciência maior do planeta, do cosmos, do universo... Eis aí a ética da com-paixão, da comunhão com o TODO!

Tenha uma ótima e abençoada semana!

Frei Paulo Sérgio, ofm

Sexta, 18 Agosto 2017 16:10

Cuidar

“O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude” (Leonardo Boff).

Tudo que vive ou existe, precisar de cuidado para continuar fazendo parte do conjunto maior da Vida. Participamos da jornada da vida humana; somos responsáveis por aqueles (as) que participam deste mesmo destino comum e maior... Fazemos parte da grande consciência do planeta Terra, a Gaia como chamavam os gregos ou Pacha Mama para os Incas.

A vida precisa ser cuidada para que ela possa prosperar! Devemos cuidar das pessoas que estão na nossa proximidade, estendendo este mesmo cuidado também aos que estão longe... As orações que elevamos a Deus possibilitam aumento da consciência maior da Pacha Mama, melhoram os níveis de compreensão da humanidade... Traz vida aos animais, minerais e vegetais... Por isso, expanda sua consciência para uma abertura plena de percepção e comunhão!

Tenha um excelente fim de semana,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Quinta, 17 Agosto 2017 08:03

Superação

“A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda” (Oliver Goldsmith).

O verdadeiro heroísmo do homem não é medido por louros, medalhas ou condecorações, e sim pela coragem e perseverança com as quais ele enfrenta cada dia. E a coragem, caros leitores, é justamente a virtude agir pelo coração. O coração enquanto centro da pessoa, lugar da cordialidade, do amor e do afeto... A coragem nos faz avançar, mesmos diante dos medos que tentam nos paralisar...

Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão. É preciso ter paixão pela vida, paixão pela missão, por tudo aquilo que fazemos... Depois, construir a virtude da com-paixão: eu sou um com todos, eu caminho com todos, eu busco o melhor da vida como todas as outras pessoas...

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Segunda, 14 Agosto 2017 09:59

Novo Dia

“Todo dia sobre a Terra é um ótimo dia” (Marco Antônio – Anápolis-GO).

Eu espero que o seu amanhecer tenha sido belo e que você tenha despertado sorrindo. E que, sorrindo, tenha seguindo o seu caminho, apreciando a beleza que pôde contemplar ao seu redor... Que tenha iniciado a jornada do trabalho com gratidão a Deus pela saúde, pela disposição e por estar em perfeitas condições...

Todo dia sobre a Terra é um ótimo dia, pois estamos na posse da vida, podemos fazer coisas grandiosas e podemos atingir as pessoas através do bem e do amor. Por isso, é preciso (necessário) tomar posse de cada sopro, de cada momento e de cada dia. Cumprir a missão que Deus confia a você com a certeza de que a vida é preciosa demais para ser desperdiçada...

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm

Cidade do Vaticano – “A fé não é uma fuga dos problemas da vida, mas sustenta no caminho e lhe dá um sentido”: foi o que disse o Papa Francisco no Angelus deste domingo, XIX do Tempo Comum, no habitual encontro dominical no qual rezou, ao meio-dia, a oração mariana com fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração do Angelus, o Santo Padre destacou a página do Evangelho do dia (Mt 14,22-33), que descreve o episódio de Jesus que, após ter rezado toda a noite à margem do lago da Galileia, se dirige rumo à barca de seus discípulos, caminhado sobre as águas.

A barca encontra-se no meio do lago – observa o Pontífice – parada, sem poder avançar, impedida por um forte vento contrário. Quando veem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos confundem-no com um fantasma e se amedrontam.

Mas Ele os tranquiliza: “Coragem, sou eu, não tenhais medo”. Pedro, com seu típico ímpeto, lhe diz: “Senhor, se és tu mande que eu vá ao teu encontro sobre as águas”; e Jesus o chama “vem!”, prosseguiu Francisco descrevendo a cena narrada pelo evangelista.

Descendo da barca, Pedro caminha sobre as águas e vai ao encontro de Jesus, mas, sentindo o vento, fica com medo e começa a afundar. Então grita: “Senhor, salva-me!”, e Jesus lhe estende a mão e o assegura.

Esta narração do Evangelho contém um rico simbolismo, afirmou o Papa, “e nos faz refletir sobre a nossa fé, quer como indivíduos, quer como comunidade eclesial, também a nossa fé de todos nós que estamos aqui, hoje, na Praça”, frisou. A comunidade, esta comunidade eclesial, tem fé? Como é a fé de cada um de nós e a fé da nossa comunidade? – perguntou Francisco.

“A barca é a vida de cada um de nós, mas é também a vida da Igreja; o vento contrário representa as dificuldades e as provações. A invocação de Pedro: ‘Senhor, manda que eu vá ao teu encontro!’ e o seu grito: ‘Senhor, salva-me!’ se assemelham muito ao nosso desejo de sentir a proximidade do Senhor, mas também o medo e a angústia que acompanham os momentos mais duros da nossa vida e das nossas comunidades, marcadas pela fragilidades internas e pelas dificuldades externas.”

Não foi suficiente para Pedro, naquele momento, a palavra segura de Jesus, que era como a corda lançada à qual agarra-se para enfrentar as águas hostis e agitadas.
“É aquilo que pode acontecer também conosco. Quando não se agarra à palavra do Senhor, para ter mais segurança se consultam horóscopos e cartomantes, se começa a ir para o fundo. Significa que a fé não é tão forte”, observou o Santo Padre.

O Evangelho deste domingo nos recorda que “a fé no Senhor e na sua palavra não nos abre um caminho onde tudo é fácil e tranquilo; não nos poupa das tempestades da vida”, destacou.

“A fé nos dá a segurança de uma Presença, a presença de Jesus que nos impele a superar os vendavais existenciais, a certeza de uma mão que nos agarra para ajudar-nos a enfrentar as dificuldades, indicando-nos o caminho inclusive quando é escuro. A fé, em suma, não é uma fuga dos problemas da vida, mas sustenta no caminho e lhe dá um sentido”, frisou o Papa.

Esse episódio é uma imagem estupenda da realidade da Igreja de todos os tempos: uma barca que, ao longo da travessia, deve enfrentar também ventos contrários e tempestades, que ameaçam devastá-la, acrescentou.

“O que salva não são a coragem e a qualidade de seus homens: a garantia contra o naufrágio é a fé em Cristo e na sua palavra. Essa é a garantia: a fé em Jesus e na sua palavra. Nessa barca estamos seguros, apesar das nossas misérias e fraquezas, sobretudo quando nos colocamos de joelhos e adoramos o Senhor, como os discípulos que, no final, ‘se prostraram diante d’Ele, dizendo: ‘Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!’

Que belo dizer essa palavra a Jesus, disse o Papa Francisco convidando os presentes a repeti-la. “Que a Virgem Maria nos ajude a continuar firmes na fé para resistir aos vendavais da vida, a permanecer na barca da Igreja evitando a tentação de subir nos barcos fascinantes, mas inseguros da ideologias, das modas e dos slogans.”

Sexta, 11 Agosto 2017 16:40

DIA DOS PAIS

DEUS É PAI

Pai Nosso que estás nos céus (Mt 6, 9).

Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai! Que experiência única, profunda e cheia de consolo... Deus é o Pai Amado de cada pessoa chamada à participar da extraordinária jornada da vida! E os pais, na vida de cada um de nós expressam essa acolhida e esse amor de Deus para os filhos (as)!

Pais são histórias que atravessam anos. Encarnam valores tais como confiança, força, liderança, sustento, objetividade, proteção. Pais são ideais transformados em projeto de vida, são cuidadores da mulher e dos filhos, do biológico ao espiritual, do afetivo ao material estão ali. Têm um papel determinado na família e na sociedade. Pais são aqueles com quem primeiro brincamos na infância, com quem fizemos o dever de casa; eles repassaram segredos, disseram verdades, repreenderam com o olhar, e fizeram deles os nossos objetivos.

Pais são discretos, hábeis e ousados. Antecipam nossas intenções e guardam bugigangas úteis. Têm tino comercial e compreensão rápida. Buscam incansavelmente o bem dos filhos. Pais entendem os filhos em seus mundos; alegram-se e apoiam tudo o que de bom acontecem aos filhos, e trazem ideias para facilitar caminhos. Pais amam as mães. Pais deixam fluir coisas positivas, dão ânimo, mesmo nas dificuldades. Pais são necessários demais para moldar em nós o melhor de nós!

 

FELIZ DIA DOS PAIS!

Frei Paulo Sérgio de Souza, ofm

Paróquia Santo Antônio

Sexta, 11 Agosto 2017 16:27

Aprendizado

“Uma vida fácil nada nos ensina. No fim, é o aprendizado que importa: o que aprendemos e como nos desenvolvemos” (Richard Bach).

Traçamos nossas vidas pelo poder de nossas escolhas. Quando nossas escolhas são feitas passivamente, quando não somos nós mesmos que traçamos nossas vidas, nos sentimos frustrados. Daí, em alguns momentos, vêm sentimentos ruins e negativos de uma existência vazia e sem sentido. É preciso fazer as escolhas de maneira consciente, com muita reflexão e oração também.

Costumo dizer que nós fazemos as escolhas e elas também nos fazem. Toda dificuldade do caminho estão lá para nos fortalecer, para nos ensinar lições. É necessário aprender as lições do caminho, recomeçar se necessário for, sem perder o sonho, sem perder a esperança. Aprender sempre e desenvolver os dons e as aptidões nos fazem heróis incansáveis...

Tenha um excelente fim de semana!

Frei Paulo Sérgio, ofm

Quinta, 10 Agosto 2017 08:10

Especial Santa Clara

“Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!”

Caríssimos irmãos e irmãs,

Que o Senhor vos dê a paz e todo o bem!

Por ocasião da Festa de Santa Clara de Assis,  expresso nossos votos de boas festas e nossa comunhão fraterna a todas as pessoas que se encantam com o carisma franciscano, especialmente  nossas Irmãs Clarissas. Que Santa Clara de Assis nos inspire a viver na gratuidade o dom da vida e nos oriente na missão de bem “cuidar de tudo o que existe” na criação (LS 11)!

A Legenda de Santa Clara, quando relata o trânsito final da “Plantinha do Seráfico Pai Francisco” (TestC 37), com refinada delicadeza, apresenta um diálogo entre Clara, a “sua alma bendita”, e “o Rei da glória”, que ela “está vendo”. As Irmãs, que naquele momento estavam presentes e dela cuidavam na fragilidade física, assim testemunharam no Processo de Canonização quando ouviram um murmúrio místico no qual ela dizia a si mesma: “Vai segura, que você tem uma boa escolta para o caminho. Vai, diz, porque aquele que a criou também a santificou; e, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor. Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!” (cf. LSC n 46; PC 3,20; PC 11,3).

Em primeiro lugar, quero unir esta belíssima ação de graças, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, às palavras iniciais do Testamento de Santa Clara: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda a misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação…” (TestC 2-3).

GRATIDÃO

Sem dúvida, entre esses “outros benefícios”, encontra-se a dádiva que Clara, dois dias antes da sua morte, sussurra à sua alma em forma de louvor e ação de graças: a gratidão ao Criador “que a criou”, ou seja, a ação de graças pelo seu chamado à vida. Diariamente, ela louva o Doador de todas as graças, da forma como se expressou na segunda Carta a Inês de Praga: “Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva e todo dom perfeito” (2In 3), ciente de que ela e suas irmãs se fizeram “filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste” (RSC VI,3). Portanto, se filhas do Altíssimo, também foram criadas à imagem e semelhança do Criador que se reflete no Espelho Jesus Cristo que, por sua vez, irradia a “bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade” a ser contemplada “com a graça de Deus” (cf. 4In 18). Esta forma de vida necessita ser criada e renovada todos os dias: “Olhe para dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto…” (4In 15), num caminho penitencial de transformação total para se chegar, pela contemplação, “à imagem da divindade” (3In 13). Portanto, o murmúrio consolador de Clara à sua alma adquire um sentido profundo nesta ‘hora’ existencial quando se prepara para acolher a irmã morte corporal. Assim, a vida não termina na morte porque ela já contempla o “Rei da glória” que assim a “criou e também a santificou”.

Em segundo lugar, desejo unir este santo colóquio de Clara com sua alma e o Rei da glória, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, com o Cântico do Irmão Sol ou Louvores das Criaturas. Sabemos que este Cântico foi composto por São Francisco num momento existencial de crise e de sofrimento. O Pai Seráfico encontrava-se “numa pequena cela de esteiras em São Damião” (CA 83), bem próximo de Irmã Clara e Companheiras. Com o apoio de Frei Elias, ali Francisco se recolheu por cinquenta dias, pois estava muito “atormentado pela enfermidade dos olhos” e outras enfermidades. Certa noite, depois de passar por profundas tribulações, uma voz lhe disse: “Alegra-te e rejubila no meio de teus sofrimentos e tribulações: de hoje em diante vive em paz, como se já participasses do meu reino” (CA 83). No alvorecer do outro dia, dentro desse contexto, Francisco “compõe o Louvor do Senhor pelas criaturas de que nos servimos a cada dia, sem as quais não podemos viver e nas quais o gênero humano ofende o Criador…” (CA 83).

CLARA E O CÂNTICO DAS CRIATURAS

Francisco, no cantar a sacralidade da criação, harmonizando os elementos masculinos e femininos, canta o irmão sol e a irmã lua e as estrelas que “no céu formastes claras e preciosas e belas”; canta o irmão vento e a irmã água “que é mui útil e humilde e preciosa e casta”; canta o irmão fogo e a irmã “mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos com coloridas flores e ervas”. Assim, tão próximo às Irmãs de São Damião, onde viu “erguer-se a nobre estrutura de preciosíssima pérola” (1Cl 19), consciente ou não, Francisco integra no seu louvor às criaturas algumas virtudes que se refletiam na vida das damas pobres de São Damião. Entre essas, destaco a clara lua e estrelas, a virtude da humildade, a preciosidade da castidade e a fecundidade geradora de vida da Mãe-terra, não diferente da fecundidade espiritual que também gera vida na vida dessas mulheres consagradas no amor.

A aproximação do Cântico das Criaturas à vida de Santa Clara torna-se ainda mais evidente nas palavras de exortação de São Francisco, no texto intitulado “Audite Poverelle” (Ouvi Pobrezinhas). A Compilação de Assis nos recorda: “Depois que o bem-aventurado Francisco compôs os Louvores do Senhor pelas criaturas, compôs também algumas santas palavras com canto para maior consolação das damas pobres do Mosteiro de São Damião, mormente porque ele sabia que elas estavam muito atribuladas por sua enfermidade” (CA 84). E, assim, o Arauto do grande Rei cantou para Clara e suas Irmãs, da pequena cela, próxima a São Damião: “Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e províncias sois congregadas: vivei sempre em verdade, para que em obediência morrais. Não olheis a vida exterior, pois aquela do espírito é melhor. Eu vos peço, com grande amor, que tenhais discrição a respeito das esmolas que vos dá o Senhor. Aquelas que estão atormentadas por enfermidades e outras que por elas sobrem fadigas, todas vós, suportai-as em paz, pois vendereis muito caro esta fadiga, visto que cada uma será rainha no céu, coroada com a Virgem Maria”.

Aquela que tinha dificuldade de suportar a claridade da luz e, quem sabe, de enxergar com os olhos do corpo a beleza da criação, depois de uma síntese interior purificada no sofrimento, convida as Irmãs do Mosteiro a contemplar e louvar o Criador com o ocular do espírito, diferente e melhor do que olhar da exterioridade de quem se apropria indevidamente dos bens do Criador.

SIMPLICIDADE

Em terceiro lugar, uno o louvor de Santa Clara, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, à realidade da simplicidade da vida das pobres damas de São Damião. O recolhimento e o silêncio da clausura não as isolam da realidade da vida e da criação. Poderíamos indicar vários fatos e recolher muitos elementos da vida dessas servas de Cristo e analisar o quanto elas se integram na ótica franciscana acerca do cuidado da casa comum (Carta Encíclica Laudato Si’). Se Clara agradece a Deus pelo dom da sua criação, da mesma forma a vida de cada irmã é um dom de Deus. Por isso, ela entende que todas são chamadas a ser, por vocação, “modelo, exemplo e espelho” para restituir o “talento multiplicado” (cf. TestC 15-23).

Irmã Angelúcia, no Processo de Canonização, afirmou: “Quando a santíssima mãe enviava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente, quando vissem os homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas” (PC 14,9). Clara mergulha de cheio na concepção que Francisco tinha da vida e da criação, tão bem formulada no início da Encíclica Laudato Si’: A recordação de “que a nossa casa comum pode ser comparada ora a uma irmã, com quem compartilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe em seus braços” (LS 1).

Na Regra, ao orientar as Irmãs para uma forma de vida centrada na pobreza, Clara adverte a “não aceitar nem ter posse ou propriedade nem por si, nem por pessoa intermediária, e nem coisa alguma que possa com razão ser chamada de propriedade, exceto aquele tanto de terra requerido pela necessidade para o bem e o afastamento do mosteiro. E essa terra não será trabalhada a não ser para a horta e a necessidade delas” (RSC 6, 12-14). Esta concepção de pobreza contrasta com toda a tentação latifundiária de apropriação. E isso Clara repete outras vezes como podemos constatar no Testamento (Cf. TestCl 53), na carta a Inês de Praga quando fala da efemeridade dos “bens terrenos e transitórios” (2In 23) e, principalmente, quando pede à Igreja o Privilégio da Pobreza.

SINAIS SACRAMENTAIS

Também chamo atenção a três ‘sinais sacramentais’ do cotidiano da vida de São Damião (o pão, a água e o azeite) e que, a meu ver, são provocativos se pensarmos no consumismo destruidor do mundo de hoje. Quando Clara fala do exercício ascético do jejum, ela santifica os alimentos como um dom precioso da vida, manifestando-se misericordiosa e justa para com todas as necessidades das coirmãs (TestC 63-66). O pão mendigado (cf PC 3,13), o pão fatiado (PC 6, 16), o pão abençoado “como verdadeira filha da obediência” (Fior 33) é também o pão dos “pobres que ela muito amava” (PC 1,3) e sinal de penitência (RSC 9,2). A irmã água humilde, preciosa e casta, é sacramentalmente usada por Clara para lavar os pés e as mãos das enfermas (PC 1,12). E segundo o relato das Irmãs no Processo de Canonização, com frequência a Mãe Clara repetia o gesto do lava-pés como presença feminina de serviço (Cf. PC 2,3; 3,9; 10,6). No lavar os pés, ela se santifica e, no deixar-se lavar os pés, a sua santidade santificou a água (PC 10,11). A água, enfim, remete Clara à Cruz redentora e ao mistério pascal para recordar diariamente “a água bendita que saiu do lado direito de nosso Senhor Jesus Cristo pendente na cruz” (PC 14,8). Também o azeite faz parte do cotidiano da vida das Irmãs de São Damião. Quando este faltava, a providência divina não as deixava no desamparo (LSC 16).

Enfim, a sobriedade e a austeridade da vida no Mosteiro de São Damião, tanto no comer, como no vestir e no uso do dinheiro, é provocação e chamada de atenção ao nosso modo de viver, muitas vezes inflado pelo supérfluo, ostentado pelo luxo, negligenciado pelo desperdício, empedernido pelo capital e pelo uso do dinheiro. Essas condutas humanas, tão distantes de Santa Clara e de São Francisco de Assis, não deixam de ser um atentado ao Senhor da vida presente na vida dos pobres e uma agressão à “nossa terra oprimida e devastada, que está gemendo como que em dores de parto” (LS 2).

Que a bênção de Santa Clara chegue a todos nós: “O Senhor esteja sempre com vocês e oxalá estejam vocês também sempre com Ele! Amém”.

Quarta, 09 Agosto 2017 09:37

Prudência

“Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo” (Oscar Wilde).

É preciso cuidar melhor da palavra, pois ela deve ser sempre ação criadora e criativa. A palavra dita não volta atrás: ela tem o poder de erguer ou de derrubar! Daí a necessidade de refletir, de meditar, de aquecer as palavras no calor do coração... As palavras ben-ditas são poderosas, capazes de engendrar alegria, prazer, e dis-posição nos ouvidos que as captam...

Você não deve dizer às pessoas o que elas devem fazer, mas proporcionar que elas reflitam e sejam capazes de decidir, por elas mesmas, os melhores caminhos e as soluções... Quando você se coloca no papel de escutar, você se torna espaço de acolhida... Você pode devolver pistas, possibilidades e abertura para melhor decisão da pessoa que busca caminhos...

Abraços terapêuticos,

Frei Paulo Sérgio, ofm