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Especial Santa Clara

Escrito por 

“Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!”

Caríssimos irmãos e irmãs,

Que o Senhor vos dê a paz e todo o bem!

Por ocasião da Festa de Santa Clara de Assis,  expresso nossos votos de boas festas e nossa comunhão fraterna a todas as pessoas que se encantam com o carisma franciscano, especialmente  nossas Irmãs Clarissas. Que Santa Clara de Assis nos inspire a viver na gratuidade o dom da vida e nos oriente na missão de bem “cuidar de tudo o que existe” na criação (LS 11)!

A Legenda de Santa Clara, quando relata o trânsito final da “Plantinha do Seráfico Pai Francisco” (TestC 37), com refinada delicadeza, apresenta um diálogo entre Clara, a “sua alma bendita”, e “o Rei da glória”, que ela “está vendo”. As Irmãs, que naquele momento estavam presentes e dela cuidavam na fragilidade física, assim testemunharam no Processo de Canonização quando ouviram um murmúrio místico no qual ela dizia a si mesma: “Vai segura, que você tem uma boa escolta para o caminho. Vai, diz, porque aquele que a criou também a santificou; e, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor. Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!” (cf. LSC n 46; PC 3,20; PC 11,3).

Em primeiro lugar, quero unir esta belíssima ação de graças, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, às palavras iniciais do Testamento de Santa Clara: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda a misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação…” (TestC 2-3).

GRATIDÃO

Sem dúvida, entre esses “outros benefícios”, encontra-se a dádiva que Clara, dois dias antes da sua morte, sussurra à sua alma em forma de louvor e ação de graças: a gratidão ao Criador “que a criou”, ou seja, a ação de graças pelo seu chamado à vida. Diariamente, ela louva o Doador de todas as graças, da forma como se expressou na segunda Carta a Inês de Praga: “Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva e todo dom perfeito” (2In 3), ciente de que ela e suas irmãs se fizeram “filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste” (RSC VI,3). Portanto, se filhas do Altíssimo, também foram criadas à imagem e semelhança do Criador que se reflete no Espelho Jesus Cristo que, por sua vez, irradia a “bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade” a ser contemplada “com a graça de Deus” (cf. 4In 18). Esta forma de vida necessita ser criada e renovada todos os dias: “Olhe para dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto…” (4In 15), num caminho penitencial de transformação total para se chegar, pela contemplação, “à imagem da divindade” (3In 13). Portanto, o murmúrio consolador de Clara à sua alma adquire um sentido profundo nesta ‘hora’ existencial quando se prepara para acolher a irmã morte corporal. Assim, a vida não termina na morte porque ela já contempla o “Rei da glória” que assim a “criou e também a santificou”.

Em segundo lugar, desejo unir este santo colóquio de Clara com sua alma e o Rei da glória, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, com o Cântico do Irmão Sol ou Louvores das Criaturas. Sabemos que este Cântico foi composto por São Francisco num momento existencial de crise e de sofrimento. O Pai Seráfico encontrava-se “numa pequena cela de esteiras em São Damião” (CA 83), bem próximo de Irmã Clara e Companheiras. Com o apoio de Frei Elias, ali Francisco se recolheu por cinquenta dias, pois estava muito “atormentado pela enfermidade dos olhos” e outras enfermidades. Certa noite, depois de passar por profundas tribulações, uma voz lhe disse: “Alegra-te e rejubila no meio de teus sofrimentos e tribulações: de hoje em diante vive em paz, como se já participasses do meu reino” (CA 83). No alvorecer do outro dia, dentro desse contexto, Francisco “compõe o Louvor do Senhor pelas criaturas de que nos servimos a cada dia, sem as quais não podemos viver e nas quais o gênero humano ofende o Criador…” (CA 83).

CLARA E O CÂNTICO DAS CRIATURAS

Francisco, no cantar a sacralidade da criação, harmonizando os elementos masculinos e femininos, canta o irmão sol e a irmã lua e as estrelas que “no céu formastes claras e preciosas e belas”; canta o irmão vento e a irmã água “que é mui útil e humilde e preciosa e casta”; canta o irmão fogo e a irmã “mãe terra que nos sustenta e governa e produz frutos com coloridas flores e ervas”. Assim, tão próximo às Irmãs de São Damião, onde viu “erguer-se a nobre estrutura de preciosíssima pérola” (1Cl 19), consciente ou não, Francisco integra no seu louvor às criaturas algumas virtudes que se refletiam na vida das damas pobres de São Damião. Entre essas, destaco a clara lua e estrelas, a virtude da humildade, a preciosidade da castidade e a fecundidade geradora de vida da Mãe-terra, não diferente da fecundidade espiritual que também gera vida na vida dessas mulheres consagradas no amor.

A aproximação do Cântico das Criaturas à vida de Santa Clara torna-se ainda mais evidente nas palavras de exortação de São Francisco, no texto intitulado “Audite Poverelle” (Ouvi Pobrezinhas). A Compilação de Assis nos recorda: “Depois que o bem-aventurado Francisco compôs os Louvores do Senhor pelas criaturas, compôs também algumas santas palavras com canto para maior consolação das damas pobres do Mosteiro de São Damião, mormente porque ele sabia que elas estavam muito atribuladas por sua enfermidade” (CA 84). E, assim, o Arauto do grande Rei cantou para Clara e suas Irmãs, da pequena cela, próxima a São Damião: “Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e províncias sois congregadas: vivei sempre em verdade, para que em obediência morrais. Não olheis a vida exterior, pois aquela do espírito é melhor. Eu vos peço, com grande amor, que tenhais discrição a respeito das esmolas que vos dá o Senhor. Aquelas que estão atormentadas por enfermidades e outras que por elas sobrem fadigas, todas vós, suportai-as em paz, pois vendereis muito caro esta fadiga, visto que cada uma será rainha no céu, coroada com a Virgem Maria”.

Aquela que tinha dificuldade de suportar a claridade da luz e, quem sabe, de enxergar com os olhos do corpo a beleza da criação, depois de uma síntese interior purificada no sofrimento, convida as Irmãs do Mosteiro a contemplar e louvar o Criador com o ocular do espírito, diferente e melhor do que olhar da exterioridade de quem se apropria indevidamente dos bens do Criador.

SIMPLICIDADE

Em terceiro lugar, uno o louvor de Santa Clara, “Bendito sejais vós, Senhor, que me criastes”, à realidade da simplicidade da vida das pobres damas de São Damião. O recolhimento e o silêncio da clausura não as isolam da realidade da vida e da criação. Poderíamos indicar vários fatos e recolher muitos elementos da vida dessas servas de Cristo e analisar o quanto elas se integram na ótica franciscana acerca do cuidado da casa comum (Carta Encíclica Laudato Si’). Se Clara agradece a Deus pelo dom da sua criação, da mesma forma a vida de cada irmã é um dom de Deus. Por isso, ela entende que todas são chamadas a ser, por vocação, “modelo, exemplo e espelho” para restituir o “talento multiplicado” (cf. TestC 15-23).

Irmã Angelúcia, no Processo de Canonização, afirmou: “Quando a santíssima mãe enviava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente, quando vissem os homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas” (PC 14,9). Clara mergulha de cheio na concepção que Francisco tinha da vida e da criação, tão bem formulada no início da Encíclica Laudato Si’: A recordação de “que a nossa casa comum pode ser comparada ora a uma irmã, com quem compartilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe em seus braços” (LS 1).

Na Regra, ao orientar as Irmãs para uma forma de vida centrada na pobreza, Clara adverte a “não aceitar nem ter posse ou propriedade nem por si, nem por pessoa intermediária, e nem coisa alguma que possa com razão ser chamada de propriedade, exceto aquele tanto de terra requerido pela necessidade para o bem e o afastamento do mosteiro. E essa terra não será trabalhada a não ser para a horta e a necessidade delas” (RSC 6, 12-14). Esta concepção de pobreza contrasta com toda a tentação latifundiária de apropriação. E isso Clara repete outras vezes como podemos constatar no Testamento (Cf. TestCl 53), na carta a Inês de Praga quando fala da efemeridade dos “bens terrenos e transitórios” (2In 23) e, principalmente, quando pede à Igreja o Privilégio da Pobreza.

SINAIS SACRAMENTAIS

Também chamo atenção a três ‘sinais sacramentais’ do cotidiano da vida de São Damião (o pão, a água e o azeite) e que, a meu ver, são provocativos se pensarmos no consumismo destruidor do mundo de hoje. Quando Clara fala do exercício ascético do jejum, ela santifica os alimentos como um dom precioso da vida, manifestando-se misericordiosa e justa para com todas as necessidades das coirmãs (TestC 63-66). O pão mendigado (cf PC 3,13), o pão fatiado (PC 6, 16), o pão abençoado “como verdadeira filha da obediência” (Fior 33) é também o pão dos “pobres que ela muito amava” (PC 1,3) e sinal de penitência (RSC 9,2). A irmã água humilde, preciosa e casta, é sacramentalmente usada por Clara para lavar os pés e as mãos das enfermas (PC 1,12). E segundo o relato das Irmãs no Processo de Canonização, com frequência a Mãe Clara repetia o gesto do lava-pés como presença feminina de serviço (Cf. PC 2,3; 3,9; 10,6). No lavar os pés, ela se santifica e, no deixar-se lavar os pés, a sua santidade santificou a água (PC 10,11). A água, enfim, remete Clara à Cruz redentora e ao mistério pascal para recordar diariamente “a água bendita que saiu do lado direito de nosso Senhor Jesus Cristo pendente na cruz” (PC 14,8). Também o azeite faz parte do cotidiano da vida das Irmãs de São Damião. Quando este faltava, a providência divina não as deixava no desamparo (LSC 16).

Enfim, a sobriedade e a austeridade da vida no Mosteiro de São Damião, tanto no comer, como no vestir e no uso do dinheiro, é provocação e chamada de atenção ao nosso modo de viver, muitas vezes inflado pelo supérfluo, ostentado pelo luxo, negligenciado pelo desperdício, empedernido pelo capital e pelo uso do dinheiro. Essas condutas humanas, tão distantes de Santa Clara e de São Francisco de Assis, não deixam de ser um atentado ao Senhor da vida presente na vida dos pobres e uma agressão à “nossa terra oprimida e devastada, que está gemendo como que em dores de parto” (LS 2).

Que a bênção de Santa Clara chegue a todos nós: “O Senhor esteja sempre com vocês e oxalá estejam vocês também sempre com Ele! Amém”.

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